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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sunday Bloody Sunday

E a batalha apenas começou
Há muitos que perderam, mas me diga: quem ganhou? 
As trincheiras cavadas em nossos corações 
E mães, filhos, irmãos, irmãs dilacerados. 

(Parte da tradução de "Sunday Bloody Sunday" - U2)


A data, 30 de janeiro de 1972, o local, Derry na Irlanda do Norte, o ambiente, a luta pela separação da Irlanda do Norte da Grã-Bretanha. Essa luta rendeu, após o início da luta armada encabeçada pelo IRA (Irish Republican Army ou Exército Republicano Irlandês), um saldo de mais de 3500 mortos.

Em 1983 a banda irlandesa U2 lançou a música "Sunday Bloody Sunday!" em memória daquele fatídico dia. A banda arrasta multidões aos seus mega shows, pessoas dormindo nas filas e tudo aquilo que vemos quando grandes artistas, sobretudo os internacionais, se apresentam no Brasil. Mas fico curioso pra saber se ao entoar essa música, que é uma das mais tocadas da banda, as pessoas realmente sabem o que ela representa.

Os conflitos da época não tiveram como motivo apenas o desejo nacionalista de separação do país da Grã-Bretanha, mas também a briga entre a maioria protestante e os católicos. Além dos registros históricos foram feitos vários filmes, alguns até bem recentes, tendo como pano de fundo, ou enredo principal, os conflitos em território Irlandês.

Existia ali um componente claro de disputa de poder, mas o que quero trazer para discussão é a capacidade humana de hostilizar o contraditório, o desconhecido, o diferente. Mesmo mentes esclarecidas, politizadas e letradas, por vezes acabam enveredando pelo tortuoso e sombrio caminho do preconceito e do ódio.

Ao longo da história tivemos vários exemplos, no pior sentido do termo, da miséria humana enquanto ser social. Em meados do século XIX, mais precisamente após o fim da Guerra Civil, surgiu no sul do EUA a Ku Klux Klan, que pregava a supremacia branca e das religiões protestantes. Esse grupo usava, além da política, métodos violentos, como verdadeiras caçadas a negros e outros inimigos. O racismo americano não se limitou a grupos como esse e, em maior ou menor grau, perdura até hoje. Nesse mote racista os exemplos são vários em todos os cantos do mundo e em vários períodos da história.

A questão religiosa também produziu páginas igualmente sombrias: a perseguição aos cristãos pelo Império Romano, as Cruzadas, a Reforma Protestante, o conflito entre palestinos e judeus, dentre outras. Mas a página mais emblemática, na minha opinião, fica por conta da Inquisição. O simples ato de discordar do status quo religioso da época era motivo punições, chegando até mesmo ao ardor das fogueiras. E os tribunais incumbidos dos julgamentos não eram necessariamente imparciais.

No mundo moderno, apesar de toda a evolução experimentada pela humanidade, ainda arrastamos esse ranço de hostilidades. Apesar de não ser algo novo, apenas foi apresentado um novo termo, o bullying vem ganhando destaque em noticiários, fóruns e publicações. Mesmo sendo algo presente há muito tempo na sociedade, me parece que temos uma "evolução" neste comportamento, se é que este seria o termo correto. Parece existir um caráter mais cruel e perverso, dado os relatos e demonstrações cada vez mais chocantes.

Outra questão que chega a remeter nossa sociedade a tempos remotos de barbárie é o da diversidade sexual. Não se trata de gostar ou não, concordar ou não, aprovar ou não, trata-se simplesmente de respeitar o direito que cada um tem de fazer suas escolhas, ou de simplesmente ser o que é. A Constituição Federal, além de ser clara quanto à igualdade entre todos os seus cidadãos e de nos preservar o direito à liberdade de credo e pensamento, não traz sequer uma linha que indique a criminalização de relacionamentos homo-afetivos. Contudo, a despeito da universalidade da nossa Carta Magna, grupos extremistas se alastram pelo país pregando ódio e cometendo crimes sob pretextos morais.


Já passou o tempo da sociedade não só repensar seus valores, mas sobretudo a forma de defendê-los. Não é cabível que, em um Estado Democrático de Direito como o nosso, se aceite ou permita o cometimento de crimes, menores ou não, para "defender" a simples convicção de um ou mais grupos em detrimento da coletividade. Ser minoria não significa ser menos cidadão, ou menos humano como querem alguns. Entender as diferenças e conviver com elas é sinal maturidade enquanto ser humano, e de civismo enquanto integrante de uma sociedade que escolheu viver pelos princípios da igualdade e da liberdade.

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