Brasília é fruto de um concurso público, então nada mais correto e democrático do que nós também termos os arquitetos do Brasil inteiro pensando Brasília e pensando as passagens. (Ivelise Longhi - Diretora-Presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal)
Confesso que estava planejando escrever sobre outro tema, mas ao ver uma reportagem no Bom Dia Brasil sobre as passarelas subterrâneas da W3 em Brasília, não pude resistir.
Bem, a abertura da reportagem foi sobre o perigo para os pedestres ao atravessar tal via. Mas não é uma via qualquer. Quem já esteve em Brasília sabe o fluxo e a velocidade do trânsito por lá.
Antes que alguém pudesse pensar que são todos uns insanos ao se aventurar no asfalto, a repórter mostrou que existem "alternativas": as tais passarelas subterrâneas.
Contudo, as mesmas se encontram num estado crítico de abandono que as aspas que eu coloquei não possuem caráter meramente figurativo. Eu já estive várias vezes em Brasília e pude constatar pessoalmente que a realidade é bem pior do que as câmeras conseguiram captar.
A questão que eu quero levantar é de como as coisas são feitas de maneira torta neste nosso país tropical abençoado por Deus. Estamos falando de pessoas que preferem arriscar a própria vida ao atravessar uma via rápida, sem faixas ou semáforos, do que utilizar os equipamentos públicos criados justamente com a finalidade de propiciar uma travessia segura. Só que de seguras essas passarelas possuem muito pouco, ou quase nada. São guetos sujos, escuros e abandonados, facilmente utilizados por meliantes para emboscarem pedestres incautos.
Eis então que surge, desperto de seu sono profundo, o Governo do Distrito Federal com a "espetacular" ideia de criar um concurso nacional. Um concurso para que arquitetos de todo o Brasil enviem projetos para revitalização das passarelas.
Então vejamos, a Sra. Ivelise, com a coerência peculiar dos abancados de plantão em cargos públicos, diz ser mais correto e democrático continuar deixando que as pessoas arriscarem suas vidas. Pelo menos eles contam com duas boas opções: jogar Freeway com a própria vida (saudades do meu Atari), ou praticar uma roleta russa nas passarelas, torcendo para não ter um ladrão no fim do túnel. Pelo menos foi essa a leitura que eu fiz, já que ainda via rolar um edital, depois a seleção, e os demais trâmites até que as obras comecem de fato. Aqui tenho que fazer mais uma confissão, não encontrei em nenhum dicionário que as palavras "correção" e "democracia" tivessem como sinônimos "morte", "desleixo", "descaso" ou "estupidez".
Em primeiro lugar, as passarelas não ficaram do jeito que estão em um passe de mágica, são anos e anos de negligência com a população. Mas manter algo em ordem não dá notícia, ainda mais se estiver debaixo da terra. Ou ninguém nunca ouviu a expressão de que o saneamento básico no Brasil só não é priorizado porque o que fica debaixo da terra ninguém vê e, por consequência, não rende votos. E não há como negar que um concurso desta magnitude atrai muita mídia, se gasta dinheiro com estrutura e pessoal, sem contar a possibilidade de desvios.
Em segundo lugar, e falando francamente, fazer um concurso nacional para revitalizar 16 passarelas é muito mais do que "demais". É como aquele dito popular: é gastar tiro de canhão pra matar formiga.
O governo, em seus quadros, com toda certeza tem muita gente capaz de tal empreita. Se bem que se tivessem feito o dever de casa, conservando o patrimônio público, eu não estaria aqui discorrendo sobre o tema. Mas neste caso a Inês é morta, já que mais uma vez os governos gastam mais fazendo o novo, de novo, do que conservando o velho, mas ainda útil. Assim, seria muito melhor que se prestigiasse o servidor público, que está lá justamente para tratar da coisa pública. E tenho plena convicção de que qualquer um deles ficaria orgulhoso de contribuir com a sua cidade.
Disso tudo deixo o seguinte pensamento: Muitas vezes uma boa ideia pode, num segundo momento e com um olhar mais crítico, vir a se tornar uma ideia não tão boa, ou até mesmo uma péssima ideia. Mas uma ideia estúpida sempre será uma ideia estúpida.

Esta realidade me remete ao filme Irreversível (Gaspar Noé, França, 2002) onde um crime brutal é ambientado em uma passarela subterrânea... duvido que uma mulher que tenha visto o filme se sinta encorajada a trilhar o caminho mais "seguro" para a travessia da via... Esta ideia já nasceu torta..
ResponderExcluirÓtimo texto, Jr!
Sobre o filme não tenho como opinar, já que não assisti. O que você levantou sobre a ideia já ser torta é uma perspectiva muito válida. Realmente, dependendo do formato da passarela, mesmo que bem iluminada, ainda pode propiciar ataques de surpresa. Eu conheço algumas delas e nem todas são, digamos, armadilhas. Mas aí entra outra questão, a falta de vigilância presente, pois bandido prefere a facilidade e a certeza da impunidade.
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